sexta-feira, 27 de maio de 2016

T1; L1; § 5. [SUJEITO, OBJETO E REPRESENTAÇÃO - REALIDADE x SONHO - CORPO].

A relação causa e efeito se dá apenas entre objetos.
Entre sujeito e objeto não há relação alguma segundo o PRINCÍPIO DA RAZÃO.
A lei da causalidade precede a intuição e a experiência (não podendo destas ser deduzida).
[A relação] sujeito e objeto é condição primeira e precede a qualquer experiência, e precede também ao PRINCÍPIO DA RAZÃO.

"Meu ensaio sobre o PRINCÍPIO DA RAZÃO intenta expor [que:] o [seu] conteúdo é a forma essencial de todo objeto e precede a ele como tal, ou seja, é a maneira universal de todo ser-objeto: mas, desse modo, o objeto pressupõe [sempre] o sujeito como seu correlato necessário: sujeito que permanece sempre fora do domínio de validade do referido princípio".


  • O OBJETO e a REPRESENTAÇÂO DO OBJETO são uma única e mesma coisa.
  • O SER dos objetos intuitíveis é precisamente o seu FAZER-EFEITO.
"O mundo intuído no espaço e no tempo e que dá sinal de si como causalidade pura é perfeitamente real, sendo no todo aquilo que anuncia de si - e ele se anuncia por completo e francamente como representação, ligada conforme a lei da causalidade. Trata-se da realidade empírica do mundo".

"O único critério seguro para diferenciar o sonho da realidade não é outro senão o inteiramente empírico do despertar, através do qual, com certeza, a conexão causal entre os acontecimentos sonhados e os da vida desperta são sensível e expressamente rompidos".

"Que é este mundo intuitivo tirante o fato de ser minha representação? Por acaso é aquilo de que estou consciente só como representação, ou é como o meu próprio corpo, do qual estou duplamente consciente, de um lado como REPRESENTAÇÃO, de outro como VONTADE?".

domingo, 22 de maio de 2016

T1; L1; § 4. [ESPAÇO, TEMPO E CAUSALIDADE / CORPO E ENTENDIMENTO PURO / INTUIÇÃO SENSUAL-INTELECTUAL].

"[SUCESSÃO] é toda a essência do tempo".
A "possibilidade das determinações recíprocas de suas partes" [POSIÇÃO] é toda a essência do espaço.
CAUSALIDADE [e seu efeito] é toda a essência da matéria. "O ser da matéria é o seu fazer-efeito".

* * *

"A forma, que é inseparável da matéria, pressupõe o ESPAÇO; e o fazer-efeito
[CAUSALIDADE] da matéria, no qual consiste toda a sua existência, concerne sempre a uma mudança, portanto a uma determinação do TEMPO".

Caso o espaço e o tempo fossem desconexos não haveria causalidade e por conseguinte, matéria, posto que aquela é a essência desta. Disto, conclui-se que A LEI DA CAUSALIDADE é necessária para que o mundo exista e que exista uma limitação recíproca do tempo e do espaço.

"A mudança, isto é, a alteração ocorrida segundo a lei causal, concerne, portanto, sempre a uma determinada parte do espaço e a uma determinada parte do tempo, SIMULTANEAMENTE".

"A CAUSALIDADE une ESPAÇO e TEMPO"; une em si qualidades antagônicas de ambos como fluidez (TEMPO) e rigidez (ESPAÇO).

A MATÉRIA envolve, primeiramente, SIMULTANEIDADE e - o que constitui a essência da efetividade - DURAÇÃO.

"MUDANÇA [é] a modificação da qualidade e da forma a despeito da permanência da SUBSTÂNCIA, vale dizer, MATÉRIA".

"No mero espaço o mundo seria rígido e imóvel [...]. No mero tempo [...] tudo seria fugidio [...]. Apenas pela união de tempo e espaço é que resulta a matéria".

"Qual estado tem de entrar em cena NESTE TEMPO e NESTE LUGAR é a determinação à qual exclusivamente se estende a legislação da causalidade".

Do exposto reconhece-se certas propriedades a priori da matéria: impenetrabilidade, extensão, indestrutibilidade e mobilidade. [Claro que aqui, poder-se-ia fazer alguns reparos no conceito de matéria de Schopenhauer, século XIX, em vista das revoluções da Física do começo XX: matéria-energia e, antes, espaço-tempo. O mesmo vale para o conceito de gravidade que, ao contrário de Kant, ele computa como conhecimento a posteriori].

O correlato subjetivo do tempo e espaço, chamou Kant de SENSIBILIDADE PURA.
O correlato subjetivo da matéria/causalidade é o ENTENDIMENTO.
"A primeira e mais simples aplicação [...] do entendimento é a intuição do mundo efetivo [:] conhecimento da causa a partir do efeito [SOBRE OS CORPOS (OBJETOS IMEDIATOS) DOS ANIMAIS] ".
A intuição de todos os outros objetos é intermediada pelo corpo.

"As mudanças que cada corpo animal sofre são imediatamente conhecidas [...] e na medida em que esse efeito é de imediato relacionado à sua causa, origina-se a intuição desta última como um OBJETO. Tal relação não é uma conclusão em conceitos abstratos [...] mas é imediata, necessária, certa. Trata-se do modo de ENTENDIMENTO PURO, sem o qual não haveria intuição, mas restaria apenas uma consciência abafada, vegetal, das mudanças do objeto imediato, que se seguiriam completamente insignificantes [...] caso não tivesse um sentido como dor ou prazer para a vontade. Ora, assim como o nascer do Sol faz surgir o mundo visível, também o entendimento transforma [...] a sensação abafada que nada diz em intuição".

"O entendimento une espaço e tempo na representação da MATÉRIA, isto é, eficácia"

"[A] INTUIÇÃO não é somente sensual, mas também intelectual".

O conhecimento da lei da causalidade é a priori e dele depende toda intuição; mas, não o inverso. O conhecimento da lei da causalidade não depende da experiência.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

T1; L1; § 3. [REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS E ABSTRATAS / PRINCÍPIO DE RAZÃO DO SER / MÃYÃ].

Grosso modo, nossas representações podem ser de dois tipos: ou intuitivas; ou abstratas.
As representações abstratas são - sempre - conceituais e exclusivas do ser humano.
As representações intuitivas são pré-conceituais e universais.

AS REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS

"As representações intuitivas compreendem todo o mundo visível, ou a experiência inteira, incluindo as suas condições de possibilidade".

MAS O QUE SÃO CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE?

São as condições que possibilitam qualquer experiência. Elas são intuídas a priori (Kant). São conditio sine qua non à qualquer experiência - por mais básica que possamos concebê-la.
As condições de possibilidade são, portanto, as "formas do mundo visível" - tempo e espaço {"formas universais da intuição [...] intuitíveis por se, independentes da experiência, e cognoscíveis segundo sua inteira conformidade a leis, nisto, baseando-se a matemática com a sua infalibilidade"}.

* * *

Heráclito, Platão, Espinosa e Kant concordam com a sabedoria milenar indiana a respeito do que seja o que Schopenhauer chama de o MUNDO COMO REPRESENTAÇÃO, SUBMETIDO AO PRINCÍPIO DA RAZÃO: é, precisamente, Mãyã {"O véu da ilusão, que envolve os olhos dos mortais, deixando-lhes ver um mundo do qual não se pode falar que é nem que não é, pois assemelha-se ao sonho"}.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

T1; L1; § 2. [SUJEITO, SUSTENTÁCULO DO MUNDO].

"Aquele que tudo conhece mas não é conhecido por ninguém é o SUJEITO".

"Cada um encontra-se a si mesmo como esse sujeito, todavia, somente na medida em que conhece, não na medida em que é objeto de conhecimento".

"Objeto, contudo, já é o seu corpo, que, desse ponto de vista, também denominamos representação".

"[O corpo] encontra-se, como todos os objetos [...], no tempo e no espaço, mediante os quais se dá a pluralidade".

"O sujeito, entretanto, [...], não se encontra nessas formas, que, antes já o pressupõem: ao sujeito, portanto, não cabe pluralidade nem seu oposto, unidade."

"O mundo como representação possui duas metades essenciais necessárias e inseparáveis. Uma é o OBJETO, cuja forma é espaço e tempo, e, mediante estes, pluralidade. A outra, entretanto, o SUJEITO, não se encontra no espaço nem no tempo, pois está inteiro e indiviso em cada ser que representa".

O sujeito, em Kant e para Schopenhauer, conhece a priori as formas essenciais e universais de todo objeto (tempo, espaço e causalidade) e isto mostra precisamente a reciprocidade do limite entre sujeito e objeto.

T1; L1; § 1. [A MAIS BÁSICA VERDADE A PRIORI].

"O mundo é minha representação".

Esta é a verdade a priori, por excelência. Verdade mais universal até que tempo, espaço e causalidade.

Não esqueçamos, porém, que por outro lado, "O mundo é minha vontade", mas este é o tema do Livro segundo.

Por enquanto, atentemos que:

"A divisão [desmembramento da VONTADE, coisa em si] em SUJEITO e OBJETO  [...] é a forma mais [básica] sob a qual é possível pensar qualquer tipo de representação abstrata ou intuitiva, pura ou empírica".

"Verdade alguma é [...] mais certa [...] do que esta: o que existe [...] é apenas objeto em relação ao sujeito, intuição de quem intui, numa palavra, representação".

Esta verdade fundamental é princípio básico da filosofia védica (p.ex: Vyasa citado por W. Jones):

O dogma fundamental da escola védica consiste não em negar a existência da matéria [...] (o que seria insensatez) mas [...] em afirmar que a matéria não possui essência alguma independente da percepção mental, visto que existência e perceptibilidade são termos intercambiáveis.

terça-feira, 17 de maio de 2016

NOTAS SOBRE O L1 DO T1

Segundo a obra de Jaqueline Russ, é a essência do L1 do T1:


  • O mundo não passa de aparência [§3]. Existo e fora de mim, não há nada: a vida é a penas a sombra de um sonho. A representação é o ponto de partida de todo o conhecimento [§7]. O mundo apresenta-se, em primeiro lugar como sensações, modificações do sujeito corporal dotado de sensibilidade, às quais o nosso intelecto impõe as formas intuitivas a priori do tempo e do espaço. O mundo que emerge deste modo, é o conjunto dos fenômenos ligados entre si pela lei da causalidade, ou seja, pelo entendimento [§4]. Tempo e espaço combinam-se para constituir a matéria que é apenas ação, ou seja, causalidade ativa [§4 e 5].

NOTAS SOBRE O AUTOR E SOBRE A OBRA

O AUTOR

  • Schopenhauer (1788-1860) teve como inspiradores: o Hinduísmo e os escritos de Platão e de Kant. Sua intuição essencial é a de que o mundo é fundamentalmente "querer-viver", tudo não passa de um esforço universal absurdo. Em sua visão: pessimismo e ateísmo estão lado a lado na defesa do ascetismo, modo de encontrar a serenidade. [...] O fato imediato para nós é a necessidade. (Grissault, 2012)
  • Para o filósofo maior mérito de Kant foi ter estabelecido claramente a distinção entre fenômeno [REPRESENTAÇÃO] e coisa-em-si; o maior demérito foi ter decretado a impossibilidade da metafísica posto que seria impossível ter acesso à coisa-em-si
  • Para Schopenhauer é possível ter acesso à coisa-em-si [por meio da experiência interior]: ela é a VONTADE, cega e sem objetivo, que cria e anima todo universo.
Fundador do pessimismo, Schopenhauer se opõe aos grandes sistemas racionalistas dos filósofos alemães (Hegel, sobretudo), criticados por ele de maneira acerba. No entanto, ele reconhece sua dívida para com a obra de Kant, que era, segundo suas próprias palavras, "a coisa mais considerável que se produziu em vinte séculos de filosofia". A influência de Schopenhauer é perceptível em Nietzsche, sobretudo, que [Não obstante] se empenhará em combater o ideal ascético defendido por Schopenhauer, em que Nietzsche vê o sintoma da decadência da vontade de potência [Niilismo]. (Grissault, 2012)

A OBRA

O mundo como vontade e como representação, está dividida em dois tomos [T1 e T2], sendo o primeiro tomo dividido em quatro livros [L1 a L4].

No primeiro tomo:
  • O primeiro livro trata do mundo como representação [FENÔMENO].
  • O segundo livro passa em revista os graus e as formas de manifestação da VONTADE na natureza.
  • O terceiro livro é dedicado à teoria da arte.
  • O quarto livro trata de ética, filosofia e religião.
O segundo tomo apresenta suplementos dos livros do primeiro tomo.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O PRINCÍPIO DA RAZÃO SUFICIENTE

Antes de começarmos o resumo propriamente dito da obra, apresento um conceito fundamental exposto na tese de doutorado de Schopenhauer (Sobre a quádrupla raiz do princípio da razão suficiente). Faço isto porque o autor reiteradamente cita tal princípio e o considera um pré-requisito básico para entendimento de sua filosofia:

  • O Princípio da Razão (Causa) Suficiente é um postulado formalmente formulado por Leibniz, embora a ideia tenha sido concebida e utilizada, antes, por vários outros filósofos como: Anaximandro, Parmênides, Arquimedes, Platão, Aristóteles, Cícero, Avicena, Tomás de Aquino, Espinosa etc.
  • Postulado, vale lembrar, é o que se considera como fato reconhecido e ponto de partida, implícito ou explícito, de uma argumentação; premissa.
  • Assim: procurar uma prova do princípio de razão suficiente é um absurdo.

O PRINCÍPIO DA RAZÃO SUFICIENTE é assim enunciado pelo filósofo:

  • "Nada é sem uma razão para ser assim e não de outro modo".

Tal princípio possui QUATRO RAÍZES.

  • O princípio da razão do devir estabelece o fundamento dos fenômenos, da realidade efetiva.
  • O princípio da razão do conhecer norteia as representações das representações: os conceitos. Estabelece o fundamento dos juízos, das proposições acerca do mundo que se pretendem verdadeiras.
  • O princípio da razão do ser estabelece o fundamento das matemáticas. Das intuições dadas a priori: espaço, tempo e causalidade.
  • O princípio da razão do agir norteia o sujeito do querer. Estabelece o fundamento, os motivos da conduta humana.

Esquematicamente, temos:

PRINCÍPIO DA RAZÃO SUFICIENTE:
  • do devir --- fenômenos.
  • do conhecer --- conceitos.
  • da razão do ser --- espaço, tempo e causalidade.
  • do agir --- motivação.